A situação social dos samaritanos
Em seu livro Jerusalém No Tempo
De Jesus, o autor Joaquim Jeremias relata a situação social de várias
camadas de povo da época de Cristo, a começar pelo clero, depois israelitas de
origem pura, seguida pelas “profissões desprezíveis” como escravos judeus,
Israelitas ilegítimos, escravos pagãos e finalmente os samaritanos.
A respeito deste grupo Jeremias relata “Descendo ao último degrau, chegamos aos samaritanos. Durante o período pós-bíblico, a atitude dos judeus para com seus vizinhos, os samaritanos, povo judeu-pagão mesclado, passou por fortes variações e por vezes mostrou-se nada comedida. Os antigos enunciados sobre o assunto não o observaram, resultando deles uma imagem falsa.
Desde o momento em que os samaritanos separaram-se da comunidade judaica e
construíram seu templo sobre o Garizim (no mais tardar ao longo do século IV
antes de nossa era), sérias tensões surgiram entre judeus e samaritanos. Do
começo do século II antes de nossa era, temos o testemunho das palavras cheias
de ódio de Eclo 50, 25-26: “Há duas nações que minha alma detesta e uma terceira
que nem sequer é nação [cf. Dt 32,21] : os habitantes da montanha de Seir, os
filisteus e o povo estúpido [cf. Dt 32,31] que mora em Siquém” (ou seja, os
samaritanos). No que diz respeito ao período imediatamente anterior a 150
a.C., Josefo nos fala de uma disputa religiosa entre os judeus do Egito e os
samaritanos, apresentada a Ptolomeu Filometor (181-145 a.C.): tratava-se da
rivalidade entre os dois santuários de Jerusalém e do Garizim. Foi durante o
governo do asmoneu João Hircano (134-104 a.C.) que as tensões assumiram maiores
proporções; pouco depois da morte de Antíoco VII (em 129), Hircano apoderou-se
de Siquém e destruiu o templo de Garizim 5. Não é de admirar que, a seguir, o
ambiente se tenha mantido carregado de ódio.” (Aqui Jeremias cita a obra
Testamento de Levi VII 2 “A partir de hoje [isso é dito a propósito de Gn
34,25-29], Siquém (ou seja, a cidade dos samaritanos) será chamada a
cidade dos idiotas, porque nós zombamos deles como se zomba de um louco”.)
- Jeremias, Joaquim Jerusalém No Tempo de Jesus, 3a edição São
Paulo: Editora Paulus, 1983 pp. 464-5.
Com isso dá para imaginar como era a tensão entre o povo judeu e o povo
samaritano na época de Cristo. Compreendemos um pouco melhor a reação da mulher
Samaritana ao pedido de Jesus por um copo de água (João 4:9) e dos discípulos
Tiago e João reagindo à falta de hospitalidade dos samaritanos em Lucas 9:54.
Estes detalhes históricos não justificam as reações, mas, nos ajudam a
compreender melhor sua origem.
As origens dos Samaritanos
Há duas visões, bastante
contraditórias sobre as origens dos Samaritanos. O ponto de visita Judaica é que
os Samaritanos foram os descendentes de colonizadores que Salmaneser, rei da
Assíria, teria trazido de Cuta, Hamate e Babilônia depois que conquistou a
Samaria em 722 a.C. e levou a população local ao cativeiro (2 Reis 17). Qualquer
conhecimento da religião Judaica que eles tinham teria sido superficial e
misturado com paganismo. Foi por esse motivo que os Samaritanos teriam tentado
impedir os esforços de Esdras e Neemias para reconstruir Jerusalém e
re-estabelecer o santuário lá (veja Esdras 4:2ss; Ne 2:19; 4:2ss).
De acordo com os Samaritanos a versão Judaica não passa de uma terrível
enganação. Segundo eles, a deportação em 722 não foi nem total nem permanente.
Segundo eles, os deportados voltaram depois de cinqüenta e cinco anos. Na versão
dos Samaritanos o conflito com os Judeus remonta para a época de Eli, que, por
conta própria, teria estabelecido um santuário em Siló, enquanto o verdadeiro
“lugar escolhido” prescrito na lei de Moisés seria no Monte Gerizim. Este erro
foi mais tarde reforçado por Esdras que deturpou o texto sagrado e assim seduziu
o povo no retorno da Babilônia para construírem o templo sagrado no capital da
Judéia.
De acordo com alguns indícios históricos, após a queda da Samaria em 722, a
população local foi deportada em parte, mas, uma parte permaneceu. Foram
introduzidos colonizadores estranhos que se misturaram com a população que
permaneceu. Houve uma mistura entre o remanescente de Israelitas e os
colonizadores estrangeiros. Por motivos tendenciosos, a versão judaica ignora o
primeiro grupo e os Samaritanos o segundo. (Gaster, T.H. artigo “Samaritans” em
George A. Buttrick, The Interpreter’s Dictionary of the Bible, New
York: Abingdon Press, 1962. Vol 4, pp. 191-2.)
Hoje, só Deus sabe o que há de verdade e equívoco nas duas versões. Mas, com
estas visões tão contraditórias das origens dos Samaritanos, dá para imaginar
como o conflito entre eles era grande e acirrado naquela época.